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Herois das chamas

Miguel Eiras Pereira, 22 anos, natural de Braga, recebeu em 2002 o título de ‘bombeiro do ano’ pela sua acção determinante no salvamento de uma mulher caída num poço. E, embora guarde na memória “com grande satisfação” o reconhecimento público, não faz disso “o grande caso da sua vida”. Prefere mostrar a sua dedicação e empenho na “ajuda aos outros, todos os dias e em qualquer momento”.
A história de Miguel assemelha-se à da maioria dos bombeiros portugueses, cerca de 40 mil, entre profissionais (10 mil) e voluntários (30 mil). Alguém conhecido, alguém da família, os puxou para a nobre vocação. Foi, pois, por influência do irmão mais velho que Miguel Periera ficou “com o bichinho” e, uma vez no quartel dos Voluntários de Amares, fez dele rapidamente a sua casa, apesar de residir com os pais em Fiscal. “Abracei a causa e entrei de cabeça. Passo lá mais tempo do que com a minha família.” Sabe que conta com a compreensão dos progenitores, mas lá revela uma ponta de remorso por em prol dos outros, relegar aqueles que lhe estão mais próximos. Esforço redobrado pois, além do “bombeiro ser pau para toda a obra”, este quando despe a farda pega nas ferramentas e assume o seu ganha-pão: é carpinteiro.
SIRENES A ZURZIR
Quando se é menino quer-se ser astronauta, piloto e mergulhador. Rui Jorge Freitas Teixeira via passar os carros da corporação, com a suas sirenes a zurzir, e queria ser bombeiro. (Também à conta de um certo primo sub chefe visto pelos olhos infantis como o mais heróico, o mais merecedor de admiração). Residente em Alfena, Ermesinde, Rui Teixeira tem hoje 32 anos e está nos Voluntários Portuenses há 14. “Quando andava a estudar, assim que ouvia as sirenes dos bombeiros não resistia. Até faltava às aulas para os seguir, só para os ver a combater um incêndio ou a actuar noutra situação para a qual tinham sido chamados. É uma atracção que não consigo explicar.” A paixão é tal que a única colecção a que se dedica, há já alguns anos, são as miniaturas de carros de combate a incêndios, ambulâncias e bombeiros.
Nesta caminhada heróica, o menino Rui começou por tocar clarim na extinta fanfarra dos Voluntários Portuenses. Depois já bombeiro, lembra-se que, nos primeiros tempos, muitos foram os dias em que a mãe – que vive num constante sobressalto – lhe levava o farnel à conta dos piquetes extra. “Ser bombeiro exige muita dedicação, e alguma maluquice!”
O TREINADOR
Filho de peixe sabe nadar, filho de bombeiro sabe apagar fogo. Se a máxima for certeira, Paulo Monteiro é a prova. Este jovem de 38 anos abraçou a vida de bombeiro voluntário quase por transmissão genética. “Os meus dentes cresceram dentro do quartel dos Bombeiros Voluntários de Évora. O meu pai era nessa altura o comandante e nós morávamos lá. Até a minha mãe chegou a fazer parte do quadro de auxiliares.”
Com mais de 20 anos de actividade, Paulo Monteiro acaba por ser o estereótipo do típico bombeiro português: nasce e cresce a ouvir o som das sirenes. “É quase sempre assim. Os novos bombeiros que estamos agora a formar são quase todos filhos de actuais voluntários. É como se fosse uma passagem de testemunho”.
Curioso, no entanto, que o filho do nosso interlocutor, actualmente com 17 anos, não tenha seguido as pisadas dos pais, avós e de um tio. “Eu, para ser honesto, tenho que dizer que nunca fiz grande pressão para que ele fosse para lá. Já basto eu.” O pai de Paulo, José Monteiro, foi bombeiro durante 38 anos, 18 dos quais à frente do quartel, e é actualmente comandante do quadro honorário dos BVE. A mãe, Maria do Rosário, fazia parte do quadro auxiliar da corporação. O irmão chegou a bombeiro de 3ª classe. Paulo Monteiro chegou a casar com uma colega e juntos estiveram no combate às chamas.
No cargo de Chefe desde 1989, Paulo não tem pejo em afirmar que a vida de “soldado da paz” é muito dura e implica muito sacrifício. “Ninguém está livre de ficar ferido ou pior do que isso. Uma vez, por exemplo, estávamos a combater um incêndio numa residência em Montemor-o-Novo e quando procedíamos à recuperação de alguns bens, o meu pai, que estava a comandar as operações, proibiu-me de lá voltar e foi nesse preciso momento que o piso abateu. Tenho a perfeita noção de que poderia ter morrido ali”, relata, recordando o que considera ser o maior susto da sua carreira como bombeiro voluntário. Quando cruza os limites do quartel, Paulo Monteiro treina equipas de futebol do concelho.
O JUSTO DAS MULHERES
Ser bombeiro “é chegar ao extremo para ajudar quem quer que seja”. Este é o lema de Carlos Cardoso, motorista auxiliar na secção do Louriçal dos Bombeiros Voluntários de Pombal. Incorporado aos 46 anos, por entender que ser bombeiro é a melhor forma de ajudar terceiros, este 'soldado da paz', como tantos outros, viveu momentos marcantes, mas diz nunca ter tido medo. Quando muito, sentiu algum “receio”, mas medo é coisa em que não se pensa quando se está em plena actividade operacional. No dia 30 de Julho do ano passado passou por um dos piores momentos da sua vida. O relógio marcava 18h00 e Carlos Cardoso encontrava-se num autotanque de apoio aos bombeiros que combatiam um grande fogo na Serra de Sicó. Tocadas a vento, as chamas chegam à povoação de Ramalhais (Pombal) e há habitações em perigo. Apesar da viatura não estar vocacionada para apagar fogos, Carlos Cardoso e um outro companheiro não hesitam. Dirigem-se para o local e, na ânsia de auxiliar a população, algo correu mal. O autotanque faz marcha-atrás e Carlos Cardoso fica debaixo do pesado. Sofreu várias fracturas e uma perfuração junto ao ânus. Nessa altura, terá visto a morte à frente dos olhos, mas apesar da gravidade dos ferimentos, quando foi retirado, olhou para as habitações ameaçadas pelo fogo e disse “não deixem arder as casas”. Submetido a um longo período de convalescença, o bombeiro já regressou ao trabalho e não se cansa de elogiar, não só as chefias, mas essencialmente a mulher. “Tive sempre ao meu lado uma grande mulher, ela sempre me deu muito apoio”, afirma Carlos Cardoso, lamentando o facto de as mulheres dos bombeiros serem quase sempre esquecidas, quando se erguem monumentos ou descerram placas comemorativas.
Com o “bicho” do voluntariado desde cedo, o bombeiro do Louriçal entrou na Marinha de Guerra aos 16 anos, de onde saiu aos 25, para ingressar na profissão de carteiro, que manteve durante mais de duas décadas.
UM QUARTEL VERDADEIRAMENTE FAMILIAR
Lá para as bandas de Portimão, bem no Sul do País, num quartel de voluntários coabitam duas famílias de tradição do mister de ser bombeiro – os Costa e os Águas. Passemos à apresentação.
Exemplo do bombeiro voluntário, o chefe dos Voluntários de Portimão, Celestino Costa, de 62 anos, ingressou na corporação há 45. “Foi o meu colega de trabalho Florindo que me meteu o ‘bichinho’ no corpo e cá estou”, justifica-se, como se tal fosse necessário.
Compreendido e sempre apoiado pela esposa Zulmira (uma das cozi-nheiras de serviço sempre que há fogos ou em festas para angariação de fundos para a associação), Celestino passou a mensagem a duas das suas três filhas, a Margarida (36 anos) e a Lurdes (32). Bombeira de 1ª classe, Margarida está no activo há 20. Sua irmã Lurdes, bombeira de 2ª classe, integra a corporação há
14 anos. No quartel, ambas as filhas constituíram por sua vez família. Margarida casou com um colega, Rogério Sequeira, hoje com 48 anos de idade, 32 dos quais como voluntário. Igual passo deu Lurdes, que uniu a sua vida a um outro bombeiro de Portimão, Gonçalo. O outro genro, Mário Wilson, é suplente da Direcção da Associação dos Bombeiros Voluntários de Portimão. Uniu a sua vida à de Gabriela (gémea de Lurdes), a única da prole de Celestino que não é (ainda) soldado da paz.
No mesmo quartel, a outra família, a de Francisco Águas, de 51 anos de idade, também chefe na corporação, que chegou a comandar interinamente durante algum tempo. Águas assume que foi ele a puxar a família para “servir uma causa que devia ser a de muito mais pessoas”. Há 31 anos que é ‘soldado da paz’. Vocação a que responderam também os seus irmãos Fernando, 42 anos – actual adjunto de Comando
na corporação com 26 de bombeiro – e Aníbal, hoje afastado por motivos pessoais. Fernando, que se entregou “de alma e coração ao voluntarariado”, motivou o filho, Nelson, de 23 anos de idade e 11 de bombeiro. Nelson ingressou, garoto, na fanfarra dos BVP, o primeiro passo para a corporação.
Os mesmos passos do seu irmão, Bruno, que aos 11 anos já integra a mesma fanfarra. A fechar este ciclo de amor e entregue a um ideal de voluntariado e de serviço à comunidade, está Rosa Águas, a filha de Francisco, desde há cinco meses directora da Associação dos Bombeiros Voluntários de Portimão. Contudo, antes de aceitar este cargo, já colaborava assiduamente na comissão de festas da associação.
CARLOS PINTO: AO SERVIÇO DE LISBOA
“Numa madrugada de Carnaval recebemos um pedido de ajuda para um parto. Quando lá chegámos, deparámo-nos com o futuro pai, em grande ansiedade, mascarado de mexicano, e a mãe envergando um traje de índia. O trabalho de parto ocorreu em casa e procedemos ao transporte da jovem para a maternidade. A sua entrada lá foi, naturalmente, um sucesso dadas as pinturas que ostentava”. Uma “história engraçada” que Carlos Pinto, bombeiro de 1ª Classe nos Bombeiros Voluntários de Lisboa (BVL), recorda com alegria já que, enquanto bombeiro voluntário, nem sempre assiste a realidades com final feliz.
Técnico de Formação, Carlos Pinto já conta com seis anos de actividade nos BVL. Tempo mais que suficiente para passar por situações de alguma dor, não fosse esta uma actividade de “alto risco”. “A situação que mais me marcou ocorreu quando o pronto-socorro em que eu seguia chocou contra um outro veículo. Durante três meses estive incapacitado, a recuperar das lesões sofridas”, conta. Situação não suficientemente forte para fazer Carlos Pinto, de 37 anos, voltar atrás nesta sua opção. “Nem pensar. O serviço de urgência na área pré-hospitalar constituiu desde sempre um desafio”. Por isso, Carlos Pinto começou por ingressar nas Formações Sanitárias da Cruz Vermelha Portuguesa (CVP), em 1986, onde obteve a carteira de formador de primeiros socorros.
O contacto permanente com pessoal dos corpos de bombeiros e a vontade pessoal de alargar os conhecimentos e horizontes para além da área da saúde, foram as principais razões que o levaram a suspender a actividade na CVP e a ingressar num Corpo de Bombeiros. E explica que ser voluntário é “colocar-se ao serviço dos outros de forma abnegada e altruísta”. Apesar de operar na área da Grande Lisboa, onde os fogos florestais são praticamente inexistentes, Carlos Pinto não concorda com o facto do um bombeiro da cidade ser visto como um perito no ‘serviço de ir buscar o gato’. “Dizer isso é desconhecer a actividade dos bombeiros de uma urbe complexa como é Lisboa. Repare-se que os grandes fogos estruturais acontecem nas grandes cidades. Quem não se lembra do incêndio nos armazéns do Chiado? E mais recentemente da Câmara Municipal de Lisboa?”
FACTOS & NÚMEROS
Em Portugal existem 10 mil bombeiros profissionais (ganham 120 contos líquidos mais horas) e 30 mil voluntários (em média 80 contos).
Os profissionais municipais e os sapadores têm um seguro feito pelas câmaras de que dependem. Aos voluntários, o seguro é feito em associação a quem pertencem com a colaboração das autarquias.
Os equipamentos dos profissionais são financiados pelas câmaras, com comparticipação do Ministério da Administração Interna. Os voluntários equipam-se com o patrocínio do Serviço Nacional de Bombeiros, da autarquia e da Protecção Civil.
Existem dois helicópteros bombardeiros ligeiros em Santa Comba Dão e Loulé (em regime de disponibilidade permanente), sendo requisitados conforme as necessidades helicopteros bombardeiros ligeiros e autotanques ligeiros e pesados anfíbios.
Existem 7850 meios de transporte, entre ambulâncias (2828), pronto-socorros (2229), autotanque táctico (683) e de grande capacidade (41), autocomandos (459), unidade de comando de transmissão (23), auto-apoio (221), auto-sapador (331), auto-escada (111), plataforma mecânica (5), veículo de controlo (4), botes (148) e ainda outros meios (967).